Tommy Nelson – Coach
Ainda chegará o dia em que o cidadão do século 21 terá um coach na escola. A aposta de Tommy Nelson, coach, conferencista, pesquisador e autor dos livros Profissão líder e O processo da pérola, reacende a esperança para que os jovens voltem a ser mais leais e menos individualistas no mundo empresarial, tornando-se verdadeiros líderes. Formado em ciências políticas na Northeastern University, em Boston, membro do International Association of Coaches (IAC), do International Coaches Federation (ICF) e do Christian Coaches Network (CCN), nesta entrevista o norte-americano radicado no Brasil fala sobre o valor da liderança e de como alcançá-la.
Você fala não de liderança e sim de liderança servidora. Qual é a diferença entre elas? Esse conceito é tão antigo quanto a liderança, que abriga tanto a liderança participativa, ou servidora, quanto a liderança autoritária. Essa última é marcada pela hierarquia, tem mais foco na posição e menos nas pessoas. É o famoso paternalismo. Mas a função de um líder é servir aos outros. É treinar, liderar, delegar, confiar e projetar o outro. Servir é exatamente o contrário de ser servido. A liderança teve seu boom nos Estados Unidos, em um processo ligado à guerra. Eram líderes não servidores, com olhar em interesses imediatos e pouca visão de horizonte. Se precisava servir, até o fazia, mas não pensava na influência que estava tendo. O que se lembra de sua contribuição é mais a imagem. Já o líder servidor pensa no legado que vai deixar. Mas não é fácil ser líder. As pessoas se sentem inseguras em passar autoridade para o outro. Na hora de escolher um sucessor, por exemplo, há uma grande resistência dos candidatos em aceitar uma função que exige muita responsabilidade: existem chances de essa pessoa ser mais admirada, mas também mais criticada.
E onde estão os líderes do nosso tempo? Ser líder é cuidar do outro, quem assume a paternidade, portanto, já é um líder. O pai responsável, aquele que prova a comida antes de servir o filho, o pai perfeito, aquele que faz qualquer coisa pelo filho, é um exemplo. O líder é aquele que serve o liderado. Grandes exemplos de líderes servidores são Gandhi, Mandela, Martin Luther King, três políticos que entenderam que o propósito da liderança era servir aos interesses de seu povo. Também podemos pensar na imagem de um jovem, levado pela vida, pronto para sair de casa. O pai morre e ele precisa assumir a empresa da família, mudando seus sonhos. A cada momento, o líder, em certo sentido, precisa se sacrificar pelo bem comum. Ele é aquele que age porque a vida poderia ser pior se ele não agisse. A liderança eficaz nunca termina. Acaba um desafio e começa outro. É um investimento a longo prazo. O propósito do líder é a sustentabilidade da próxima geração, não é uma meta de três meses. Hoje em dia, mais do que nunca, o líder deve ter olhar para o horizonte e para o imediato. Ele é exatamente aquele que abraça as contradições.
Muito se fala na liderança em times, fator que pode determinar muitas conquistas. É uma liderança diferente? Bernadinho é o grande exemplo porque levou o Brasil, e também sua família, para a vitória. Enquanto jogador, ele sempre ficou no banco, mas sempre foi líder. Ele, inclusive, era mais líder no banco que jogando e, observando de fora da quadra, foi juntando as peças e compreendendo essa época de prata do vôlei brasileiro para ser protagonista no vôlei de ouro. O líder no esporte não pode pensar na vitória do dia. Bernardinho, por exemplo, ficou sonhando com o ouro por uma década. Um líder não precisa ser o centro das atenções, e sim sonhar grande. Neymar, por exemplo, é um ótimo jogador, mas precisa ser líder para ganhar troféus. Ele ainda não está preparado para ser líder.
No mundo dos negócios existem muitos gestores e poucos líderes. É possível mudar essa proporção? Temos muitos gerentes e poucos líderes. Os gerentes são absolutamente necessários, mas se limitam a executar tarefas. O líder cuida das pessoas entendendo que são elas que vão executar as tarefas. A alta performance ocorre quando as pessoas estão engajadas e o líder cuida do sonho dessas pessoas sem sacrificar as metas da empresa. O líder entende que uma coisa dá em outra e que vale a pena ouvir o liderado. Quando uma empresa, empreendimento ou família entra em crise, as pessoas tendem a apagar o incêndio e esquecer as pessoas. O certo seria o contrário. É preciso investir nas pessoas. A GE é a empresa que mais trabalha a formação de liderança, porque percebeu que o crescimento só é possível com liderança, em que se tem em quem colocar responsabilidade. A empresa que acha que é preciso crescer primeiro para depois formar líderes está encrencada.
Esse é um ponto polêmico. Afinal, o líder nasce líder ou pode ser formado? Nascemos com nossas características e algumas são mais diretivas que outras. Primeiro, é preciso entender a diferença entre autoridade e poder. Poder é quando tenho posição e penso que todos os outros vão ter que me obedecer. Já a autoridade exige respeito: não se pode mandar em alguém que não respeita você. Todo mundo pode ser líder. Todo pai é líder. É uma questão de escolher cuidar de outro.
Então, como se treina um líder em uma empresa, por exemplo? A diretoria das empresas tem que investir em uma cultura e não em um programa de liderança. A maioria delas acha que esse pequeno esforço adiantaria, mas os impactos seriam pequenos. O ideal é mudar a cultura. A GE fez uma pesquisa no seu processo de formação de líderes para decidir em quem investir. Os resultados mostraram que 10% dos funcionários estavam desalinhados com os valores da instituição; 20% tinham um verdadeiro casamento com a empresa; e 70% eram alinhados com os valores, mas sem desejo, sem potencial para ser líderes. Para determinar o investimento nas pessoas, resolveram investir 80% da verba nesses 20% que não eram, necessariamente, líderes natos, mas estavam totalmente alinhados com a empresa. Outro exemplo é a Caterpilar, eleita, em 2009, a melhor empresa para trabalhar. Apesar de muito operacional, eles também investem em formação de líderes. É um erro achar que o “peão” não tem capacidade de liderança. Se recebem esse investimento, são leais, e é melhor ter alguém valorizado como esse cara que manter aqueles 10% desalinhados. Ele não precisa estar encaixado nos 20% totalmente dedicados à empresa. Se ele faz parte da maioria e recebe esse investimento, já vai produzir melhor. O que a empresa precisa é ter coragem de tirar os 10% desalinhados.
Como as empresas podem valorizar essa cultura de liderança? Se a empresa não tiver clareza de seus valores, não adianta. É preciso deixar claros seus valores e sua missão. Quando isso não é claro, mas só o valor financeiro, vão atrair qualquer um. Quando um líder assume uma empresa sustentável, que investe em líderes alinhados com seus valores, terá em seu quadro vários talentos. A empresa sustentável já está investindo inclusive em universidades, para formar profissionais alinhados. Isso é especialmente importante hoje, quando o jovem profissional não fica no emprego se não crescer. A rotatividade é imensa, as indústrias pontocom deram errado porque não tinham sustentabilidade, não tinham uma reflexão do que queriam ser em alguns anos.
E como será o líder do futuro, nessa realidade tão distinta? O líder de verdade tem inteligência emocional, vê a realidade ao seu redor e tem maturidade para se autobuscar. E tem coragem. Se tem propósito de vida, já é um bom líder para a própria vida. Por isso, o coach é uma nova indústria ao ajudar essas pessoas a decidir. Sozinhos, evitamos responder às perguntas difíceis. O líder do futuro vai ser um coach e o coach do futuro vai ser um líder. Aristóteles já dizia: o melhor líder é o rei filósofo, que refletia antes de tomar decisões. O jovem de hoje quer pular etapas e não pode ser assim. O líder é formado na experiência. O jovem da geração Y não quer sofrer, não quer demorar, não quer ser peneirado. Ele quer ser chefe e pronto. Por isso, é muito importante que o líder seja coach para atrair o jovem para que cresça e conquiste metas.
Fonte: www.uai.com.br