O principal índice de inflação do país, o IPCA, encerrou o ano de 2010 com uma alta acumulada de 5,91% – o maior número dos últimos seis anos. O dado foi divulgado nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado ficou bem acima do registrado em 2009, quando o índice subiu 4,31%, e está próximo ao patamar de 2008, quando fechou em 5,90%, em um cenário de forte pressão inflacionária.
O aquecimento da economia brasileira, com desemprego em queda e renda em alta, além da valorização de algumas commodities agrícolas no mercado internacional, são apontados como as principais razões da retomada da inflação em 2010.
Para este ano, a expectativa do mercado é de que a inflação continuará preocupando e deverá ser um dos principais desafios da equipe econômica do governo Dilma Rousseff. Os economistas ouvidos pelo boletim Focus do Banco Central prevêem um IPCA de 5,32% em 2011.
Os economistas apontam duas razões, em especial: o aquecimento da economia brasileira e a alta dos preços dos alimentos no mercado internacional.
No primeiro caso, a explicação está relacionada a fatores internos. O Brasil foi um dos países que mais rápido saiu da crise financeira internacional, com a melhora de diversos indicadores já em 2010.
Com desemprego em queda e renda em alta, os brasileiros voltaram a consumir no ano passado. Em um ano, o nível de crédito no país cresceu 20%, chegando a 46,3% do Produto Interno Bruto (PIB).
“A alta dos preços também é reflexo desse aquecimento da demanda, em meio ao crescimento econômico do país”, diz a economista Ariadne Vitoriano, da Rosenberg & Associados.
Mas a inflação brasileira em 2010 não foi influenciada apenas pelo lado da demanda. A valorização das principais commodities agrícolas no mercado internacional também tem contribuído para alimentos mais caros.
A cotação do café em grão, por exemplo, ficou 37% maior em um ano, enquanto o açúcar subiu 29% nos mercados internacionais.
A forte recuperação econômica dos países emergentes, sobretudo a China, fez com que a demanda por alimentos subisse rapidamente e, em conseqüência, seus preços.
Estima-se que a renda dos chineses esteja crescendo a uma velocidade de 20% entre os mais pobres, criando condições para que milhões de pessoas possam melhorar sua alimentação.
O preço da soja reflete bem esse processo. Mesmo com safras recordes nos principais mercados produtores, entre eles Brasil e Argentina, o preço do grão continuou em alta, graças, sobretudo, ao consumo chinês.
Diversos outros alimentos também seguiram tendência de alta no ano passado, como carnes, açúcar, café e algodão.
Em alguns casos, como do trigo, o preço também foi influenciado por questões climáticas. Fortes secas na Rússia e na Argentina reduziram os estoques e puxaram os preços para cima.
De acordo com o órgão das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que acompanha mensalmente o preço de uma cesta com 55 commodities agrícolas, os valores registrados em dezembro do ano passado foram os maiores desde 1990, início da série histórica.
O grupo alimentos e bebidas tem uma forte participação na inflação do país, com um peso de 23% no caso do IPCA. É por esse motivo que, quando os preços dos alimentos sobem, o índice tende a acompanhar.
Em 2010, os preços desses itens subiram 10,30%, contribuindo com 2,34 pontos percentuais da alta inflacionária.
O brasileiro tem sentido esse processo diretamente no bolso: em um ano o preço da carne subiu 30% e o feijão, 51%.
Mas apesar da forte influência, não foram apenas os alimentos que puxaram a inflação para cima em 2010.
Os aumentos nos valores dos aluguéis (7,4%) e condomínio (7,1%) também foram significativos no ano passado. Outros serviços também cresceram acima do IPCA, como empregados domésticos (11,8%) e cabeleireiro (8,1%).
“Ao contrário de períodos anteriores, quando outros setores não acompanharam a alta, dessa vez vemos um aumento de preços quase generalizado”, diz o economista Paulo Picchetti, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em inflação.
Uma das razões, segundo ele, está no fato de alguns índices de preços no atacado, como o IGP – que reflete ainda mais a alta dos alimentos – ainda serem usados como indexador de diversos contratos no país, causando um efeito cascata no reajuste de preços.
Um dos mecanismos mais utilizados pelos governos no combate à inflação é o aumento dos juros, que torna o crédito mais caro e tende a reduzir o ritmo de consumo.
Diante dos sinais de alta generalizada dos preços, o Banco Central do Brasil iniciou um novo ciclo de aumento dos juros em abril do ano passado. A taxa foi elevada por três vezes consecutivas, saindo de 8,75% para 10,75%. Desde a reunião de julho, porém, não houve mais qualquer alteração.
A manutenção da taxa básica de juros em um cenário de inflação em alta despertou críticas entre alguns analistas de mercado, para quem a taxa básica de juros (Selic) deveria estar em um patamar mais alto para combater a inflação.
Outra medida tomada pelo governo brasileiro foi o aumento do compulsório – dinheiro dos bancos que fica retido pelo Banco Central.
Ao retirar R$ 61 bilhões de circulação, no final do ano passado, o objetivo da autoridade foi o de reduzir a liquidez do mercado e, assim, “encarecer” o crédito, uma medida com resultado similar a um aumento nos juros.
A previsão do mercado é de que a inflação continuará em um patamar elevado, em função da alta dos alimentos, que ainda não deu mostras de arrefecimento.
Segundo levantamento semanal do Banco Central, o IPCA deverá encerrar o ano de 2011 com alta de 5,32%.
Na avaliação de Paulo Picchetti, a inflação deve se estabilizar ao longo do ano. “É importante lembrar, no entanto, que isso não significa recuo nos preços”, diz.
Ainda de acordo com o economista da FGV-SP, essa estabilização deve começar a partir do 2º semestre, quando os preços das commodities deverão atingir um “limite”.
Com o início do governo Dilma Rousseff, é possível esperar medidas adicionais no combate à inflação?
A nova presidente tem dado sinais de que pretende colocar em prática algumas medidas de ajuste fiscal – o que a médio prazo poderá ter um efeito benéfico sobre a inflação.
Um dos planos já anunciados é um corte de R$ 20 bilhões no orçamento deste ano, mas o assunto precisa ainda ser detalhado e encaminhado para aprovação no Congresso Nacional.
Ao enxugar seus gastos, o Estado contribui para a redução dos preços, na medida em que reduz o ritmo de dinheiro em circulação (liquidez).
Segundo Picchetti, o futuro da inflação também está diretamente relacionado à “credibilidade” do novo governo.
“A credibilidade é um aspecto de extrema importância nesse processo. Ela mexe com as expectativas das pessoas, que por sua vez influenciam algumas decisões quanto a reajustes de preços”, diz o economista da FGV-SP.
“Por isso é importante que as metas do governo, como a do superavit primário, sejam colocadas e perseguidas de forma clara e transparente”, acrescenta.
Fonte: BBC Brasil